A Igreja de Paulo

 

A primeira coisa que precisa ser dita sobre a missão paulina é que ela foi, deliberadamente, uma missão às margens. Paulo não escolhia capitais para instalar sedes; escolhia cidades como pontos de irradiação — Corinto, Éfeso, Filipos, Tessalônica, Antioquia. Centros comerciais, encruzilhadas de culturas, portos de passagem. E dentro dessas cidades, não se instalava nos salões dos poderosos, mas nas casas dos artesãos e dos libertos.

O próprio Paulo registra sua sociologia com uma franqueza que desconforta:

"Considerai, irmãos, a vossa vocação: não há muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento. Mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes." (1 Coríntios 1:26-27).

O historiador Flávio Josefo (37–100 d.C.), nascido em Jerusalém em uma influente família de sacerdotes judeus e mais tarde acolhido pela corte imperial de Roma, registrou com detalhes os costumes e conflitos de sua época. Entre outros registros, observou que o movimento paulino possuía uma capacidade singular de atravessar divisões rígidas da sociedade judaica e helenística, reunindo pessoas de origens distintas em uma mesma coesão comunitária (Antiguidades Judaicas, JOSEFO). Séculos mais tarde, Wayne A. Meeks, historiador do cristianismo primitivo e professor da Universidade Yale, aprofundaria essa leitura em Os primeiros cristãos urbanos, mostrando, a partir de evidências epigráficas e literárias, que as comunidades paulinas eram transversais às classes sociais, reunindo escravos libertos, artesãos e alguns patronos de classe média no mesmo espaço comunitário (MEEKS, 2022). O que em Josefo aparece como testemunho histórico do ambiente social e religioso do século primeiro, Meeks interpreta em chave histórico-sociológica no interior das comunidades paulinas: a Igreja paulina não apenas pregava igualdade diante de Deus, mas criava espaços concretos onde as fronteiras sociais do mundo antigo eram relativizadas pela comunhão em Cristo.

Essa configuração social não era, para Paulo, apenas uma consequência prática da missão urbana, mas a expressão concreta de uma convicção teológica mais profunda. Paulo expressou o fundamento teológico dessa igualdade ao afirmar que, em Cristo, “não há judeu nem grego, escravo nem livre” (Gálatas 3:28). Lutero, ao comentar Gálatas 3:28, percebeu com precisão a força teológica da afirmação paulina: “não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um em Cristo Jesus”. Para o reformador, Paulo desfere aqui um golpe mortal contra toda pretensão de mérito diante de Deus: posição social, instrução, justiça própria, influência, virtudes cívicas ou distinções humanas podem ter valor na ordem temporal, mas não contam para a justificação. Diante de Deus, o que importa não é ser judeu ou grego, senhor ou servo, homem ou mulher, mas estar revestido de Cristo. Essa leitura luterana ilumina o que Paulo havia praticado nas comunidades que fundou: uma comunhão em que a identidade em Cristo precedia e relativizava todas as identidades sociais, tornando a igualdade diante de Deus não uma simples abstração doutrinária, mas uma realidade que pressionava a própria forma de vida comunitária.

Essa igualdade diante de Deus não se expressava apenas na inclusão de diferentes grupos sociais, mas também na própria forma como a comunidade era organizada. A comunidade paulina estruturava-se de forma orgânica, configurando uma Igreja sem clero profissionalizado ou corporativo. O próprio Paulo sustentava-se como artesão — fabricante de tendas — rejeitando converter seu apostolado em um fardo financeiro ou em uma carreira ministerial para as comunidades que servia (1 Tessalonicenses 2:9; 1 Coríntios 4:12). Naquela dinâmica, as lideranças não dependiam de nomeações burocráticas ou de uma "gestão eclesiástica" focada em organogramas; elas emergiam naturalmente, identificadas pelos dons espirituais e pelo caráter testificado. O catálogo de saudações em Romanos 16 evidencia esse ecossistema anticlerical: Febe é reconhecida como diákonos de Cencreia, Priscila e Áquila despontam como colaboradores autônomos, e Junia é celebrada como notável entre os apóstolos (Romanos 16:7). O contraste fica ainda mais evidente ao confrontar essa dinâmica com os escritos do historiador contemporâneo Flávio Josefo, cujas crônicas detalham o funcionamento do Templo de Jerusalém e das seitas da época como uma máquina burocrática engessada, gerida por uma elite clerical profissionalizada, títulos nobiliárquicos e barganha política (JOSEFO, 2021). A eclesiologia de Paulo nasceu precisamente como uma antítese a esse modelo corporativo descrito pelo historiador judeu. A grande ironia histórica reside no fato de que, após a virada constantiniana e a subsequente burocratização herdada pela Reforma, a gestão eclesiástica contemporânea acabou retrocedendo ao exato modelo de cargos, centralização e clientelismo que o cristianismo primitivo havia originalmente superado.

Talvez a pergunta que nos resta seja inevitável: nossas comunidades cristãs ainda carregam algo da ousadia paulina de reunir diferentes, deslocar hierarquias e relativizar prestígios em nome da comunhão em Cristo? Ou apenas revestimos de linguagem espiritual os mesmos modelos de poder que Paulo ajudou a superar? Se a Igreja nasceu como mesa compartilhada, talvez seja hora de perguntar se ainda estamos construindo comunhão — ou apenas administrando estruturas.

 

Bibliografia

JOSEFO, Flávio. Antiguidades Judaicas. São Paulo: Cpad, 2004.

JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus: obra completa. Tradução de Vicente Pedroso. Rio de Janeiro: CPAD, 2021.

LUTERO, Martinho. Commentary on St. Paul's Epistle to the Galatians (1535). Tradução de Theodore Graebner. In: MONERGISM. [S. l.: s. n.], [19--?]. Disponível em: https://www.monergism.com/thethreshold/sdg/luther/luther_galatians.html. Acesso em: 29 ago. 2026.

MEEKS, Wayne A. Os primeiros cristãos urbanos: o mundo social do apóstolo Paulo. 2. ed. Tradução de I. F. L. Ferreira. Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2022.